Bolha de Ar

Sábado

O alto das minhas costas dói em função da posição camarônica que eu tenho adotado. Cogito pegar um Salonpas (não é publi), mas já penso na dor que vai ser para tirar. Preciso comprar uma cadeira de escritório decente. E uma mesa, também decente. Digito isso da mesa de plástico da cozinha, sentado numa cadeira também de plástico (daquelas brancas a lá capa do álbum do Bad Bunny. Soy muy latino). Ergonomia é um conceito alienígena para mim.

Nessa mesa e cadeira tomei meu café da manhã, numa calma que só é permitida aos sábados e domingos. Trouxe o notebook velho para a cozinha para ficar tocando música. Chamo de notebook velho1 porque depois de alguns sustos que ele me deu, comprei um novo para não ficar na mão (e poder rodar jogos lançados nessa década). Mas agora depois de aposentado ele segue firme e forte e até dando menos defeitos(!?). Parece aqueles parentes idosos que estão há dez anos dizendo "dessa semana eu não passo!"

Além de merendar e lavar o pouco de louça que tinha na pia, não fiz nada hoje. Digo, nada de produtivo. Tem algumas ligações que estou protelando fazer; nada muito urgente. Um móvel que eu preciso buscar, uma tatuagem que eu quero marcar. Está na minha lista arrumar minhas roupas, que estão todas socadas de forma desordenada nas gavetas da cômoda e cada vez que eu procuro uma peça eu bagunço mais. Preciso comprar umas camisetas novas também, as que eu uso já estão com a gola esgarçada. Mas uma hora dessa o centro já fechou.

Reclamo que não tenho tempo para fazer o que está na minha lista de tarefas, mas gastei algumas horas lendo a wiki de Fullmetal Alchemist porque me deu na telha. Mas hoje é sábado, né? Acho que eu posso.

Não ando passando muito tempo na cozinha, só o tempo de esquentar a marmita no microondas e comer. Compro as marmitas prontas, congeladas para a semana. Um gasto de dinheiro, uma economia de tempo; alguns diriam que essas coisas são equivalentes, contudo, eu acho que isso é mais uma das distorções de realidade causadas pelo capitalismo.

Não costumo escutar música no alto-falante. A acústica desse prédio é terrível e eu não quero incomodar os vizinhos. Mas sempre estou ouvindo alguma coisa em fones de ouvido; os bluetooth, que vivem descarregados e são um saco para carregar, ou os de fio, que desconectam espontaneamente da entrada do celular e com frequência engancham nas maçanetas das portas, ou em alguma outra coisa, quando estou passando de um cômodo para o outro.

Ouvir música de um notebook velho, numa manhã parada de sábado, enquanto passo um café e como com calma, me deu uma sensação estranha. Essa domesticidade, quase nostalgia, quase...

O fato de uma manhã tão banal ter sido tão incomum a ponto de eu sentar para escrever um texto sobre ela me indica que eu ando correndo demais. Sempre tem algo para fazer, algum lugar para estar, alguma preocupação. E, apesar de correr tanto, sinto que não saio do lugar. Parece aquele trecho de Alice Através do Espelho, com a Rainha Vermelha.

Assim como Alice eu sou muito susceptível a cair em tocas de coelhos e acabar em lugares estranhos. Sendo metalinguístico novamente, esse texto é uma dessas tocas. Não sabia onde ia dar quando comecei a escrever, mas queria explorar essa inquietação causada pela quietude. Agora não sei como terminá-lo. Talvez não seja útil para quem está lendo, mas creio que foi necessário para mim escrevê-lo. Bom fim de semana.

  1. E é velho mesmo, tem quase 12 anos.