Olha pro céu, meu amor
Eu tenho buscado olhar mais pro céu ultimamente, principalmente no pôr do sol, que é quando eu estou saindo do trabalho. E o pôr do sol daqui é geralmente tão bonito. Eu gosto quando o céu fica em tons de rosa, azul e branco, mas também quando fica um laranja intenso, como são os pores do sol1 desse mês. Aquilo que os anglófonos chamam de golden hour.
Ontem, eu fiquei vendo o pôr do sol na beira de um açude. A água refletindo o céu quase branco e dourado, a serra emoldurando a paisagem, ela própria só uma silhueta. A água calma sendo perturbada ocasionalmente por algum peixe vindo perto da superfície tentar descolar um lanchinho com os insetos que por ali pairavam. Pássaros voando para lá e para cá, imagino eu que também tentando descolar o último lanchinho do dia antes de procurar uma árvore para dormir. A vida mundana e maravilhosa acontecendo.
Dizem que cada um de nós é o universo olhando para si mesmo através de bilhões de pontos de vista, e talvez essa seja nossa tarefa2 real: experimentar esse universo pelo pouco tempo que temos enquanto consciências individuais. Então, de vez em quando, eu tento parar e observar. Sem as preocupações do capitalismo e da vida adulta, só olhar as nuvens se movendo, os pássaros voando, a lua cheia redonda quando ela aparece de frente à minha porta, acima dos prédios.
Eu tinha mais tempo para contemplação quando era criança. E mais tédio também. Duas coisas que a vida moderna está em vias de extinguir. Observar essas cenas da natureza, onde eu as encontre, cria uma ponte com esse tempo de criança; os finais de semana na casa da minha vó, no sítio. Quando a vida parecia mais orgânica e cheia de possibilidades, e não um processo mecânico, uma lista de tarefas interminável. Saudosismo da infância é piegas, eu sei, mas...
A vida não é útil3 e olhar pro céu é um fim em si mesmo.