Feed
O feed me remete a um funil onde são jogados todos os artigos, opiniões, fotos, piadas, e tudo vai sendo empurrado goela abaixo, cérebro adentro. Me remete àqueles comedouros das granjas onde é colocada a ração dos frangos e que, em algumas caricaturas, aparecem como funis nos quais as aves passam o dia inteiro comendo e engordando para o abate.
Acho que a gente perdeu em qualidade quando a linha do tempo, o feed, se tornou a página inicial padrão das redes sociais. Esse estirão infinito de publicações de todo mundo que você conhece se tornou muito cômodo: dá para consumir a variedade de conteúdos postados e, a qualquer momento, abrir o Twitter ou o Facebook e encontrar posts novos para preencher o vazio do tédio.
Mas mesmo o feed cronológico, isto é, ordenado da publicação mais recente à mais antiga, com rolagem infinita (que dispensa você de ficar passando páginas como antigamente), mesmo esse feed se esgota às vezes. Você chega aos posts que você já leu. As pessoas não postam de forma homogênea, a toda hora, todos os dias. Pelo menos não antes de nos tornarmos cronicamente online. E aí as grandes empresas de tecnologia, mais interessadas em mostrar publicidade (afinal, esse é o seu modelo de negócios delas) e em desestabilizar democracias (um efeito colateral), implementaram o feed "algorítmico". "Mas tudo é algorítmico!", meu lado pedante insiste em bradar. O que é verdade. A novidade aqui é que eles inventaram um jeito de ordenar os posts de acordo com aquilo que o usuário supostamente tem mais interesse, quebrando completamente a temporalidade. Como eles calculam esse interesse? Segredo industrial. Ninguém sabe ao certo como o tal Algoritmo funciona, e todo mundo que tenta domá-lo está fazendo oferendas a um deus moderno, na esperança de colher visualizações.
A última novidade, que já tem alguns anos, foi expandir as recomendações de conteúdo para além daquilo que o usuário segue. Ao ponto de o TikTok, quando aberto pela primeira vez já começar a recomendar vídeos, e o Deus Algoritmo ir "aprendendo", a partir da forma como você interage, a te mostrar vídeos cada vez mais interessantes, criando um duplo digital seu que sabe, supostamente, o que você quer ver antes de te mostrar. Esse é o máximo da conveniência: você não precisa fazer nada antes de ser servido. E o conteúdo vem de bandeja? Não, num funil, empurrado goela abaixo junto com o seu tempo.